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A profissão de intérprete de língua de sinais no Brasil vem ganhando cada vez mais espaço e sua atuação em diferentes contextos vêm sendo muito discutida. Atrelada a esta investigação, está o surdo e a aquisição de língua de sinais por parte deste sujeito, além da intimidade que deve possuir com a língua, com a comunidade surda, a constituição da identidade e cultura. A fim de discutir tal relação, este artigo tem como objetivo demonstrar a importância da aquisição da língua de sinais para o surdo e suas implicações para a aquisição de uma segunda língua, baseando-se em uma perspectiva de desenvolvimento lingüístico efetivo, para que seja satisfatória a atuação do intérprete de língua de sinais. A análise do tema em questão baseia-se em pesquisas bibliográficas e empíricas.
Outros estudos feitos por vários pesquisadores assinalam que os surdos, a exemplo dos ouvintes, podem se desenvolver linguisticamente, desde que sejam expostos à Língua de Sinais o mais cedo possível; se isto não acontecer, o desenvolvimento global do indivíduo surdo poderá ser afetado de modo significativo.
Guarinello (2007, p.48) reitera:
(...) para que as crianças surdas venham adquirir a língua de sinais como primeira língua, é necessário que elas sejam expostas a usuários competentes dessa língua, ou seja, adultos surdos fluentes, que vão responder tanto pela exposição como pelo ensino da gramática para as crianças e seus pais, que, em 95% dos casos, são ouvintes.
2. Língua de sinais, cultura, identidade e bilinguismo
A criança surda, assim como a ouvinte, para se tornar um falante competente na sua primeira língua, precisa estar em ligação com ela, e a interação com adultos surdos proporcionará, além da aquisição da língua, a construção da identidade, sendo que isto acontece através do contato com a comunidade surda. De acordo com Perlin (2005, p.77), “As identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com a maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito.” É nas relações com a comunidade surda que o indivíduo irá se reconhecer e se aceitar enquanto surdo, definir suas características, comportamento e percepção do mundo. Neste momento, o surdo tem a oportunidade de se identificar com a cultura, com a língua, com os costumes e valores e de perceber suas potencialidades enquanto sujeito de uma minoria lingüística. Partindo do contato prévio com a língua de sinais e com a comunidade, para aquisição da língua pela criança e para a constituição de sua identidade, ressalta-se a possibilidade do surdo interagir com uma segunda língua, e para isto faz-se necessária a aquisição da primeira. Skliar (apud GUARINELLO, 2007, p.33) confirma que “a experiência prévia com uma língua contribui para aquisição de segunda língua, dando à criança as ferramentas heurísticas necessárias para a busca e a organização dos dados lingüísticos e o conhecimento, tanto geral como específico, da linguagem”.
A abordagem educacional que traz em sua proposta a acessibilidade de duas línguas no ambiente escolar é o bilingüismo. Seu surgimento deve-se às reivindicações dos surdos pelo direito a sua língua e às pesquisas lingüísticas sobre língua de sinais. Estudos comprovam que essa abordagem é a mais coerente para o ensino de crianças surdas, trazendo em sua filosofia a importância da aquisição da língua de sinais, para que a partir dela seja ensinada uma segunda, ou seja, a língua majoritária, preferencialmente na sua modalidade escrita. Quadros (1997, p.27) afirma que:
O bilingüismo é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança surda duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita.
(...) potencialidade como direito à aquisição e desenvolvimento da língua de sinais como primeira língua; potencialidade de identificação das crianças surdas com seus pares e com adultos surdos; potencialidade do desenvolvimento de estruturas e funções cognitivas visuais; potencialidade para uma vida comunitária e de desenvolvimento de processos culturais específicos; e; por último, a potencialidade de participação dos surdos no debate lingüístico, educacional, escolar, de cidadania, etc...
Skliar aponta a aquisição da língua de sinais como primeira potencialidade e a partir desta, outras podem ser desenvolvidas, pois é interessante e importante um bom desempenho na sua primeira língua para que outros aspectos na vida do surdo sejam aprimorados. Lamentavelmente, muitos surdos não adquirem a língua de sinais como primeira língua ou passam por este processo de aquisição de forma tardia. Isto implica em uma série de dificuldades que é manifestada quando este é inserido em uma sala de aula inclusiva, pois estes obstáculos acabam também envolvendo um profissional que trabalha diretamente com o surdo em sala de aula, o intérprete de língua de sinais.
3. Intérprete de Língua de Sinais
Antes de abordarmos sobre as dificuldades encontradas por este profissional frente ao surdo com dificuldades lingüísticas em língua de sinais, comentários serão feitos acerca deste profissional em relação ao seu papel em sala de aula e suas atribuições. Ressalta-se que as observações demonstradas têm como objetivo contribuir de forma crítica, para o avanço na atuação deste profissional, assim como na educação de surdos.
O intérprete de língua de sinais é o profissional que tem domínio da língua de sinais e da língua oral. No nosso país, este profissional domina a língua brasileira de sinais (Libras) e a língua portuguesa, podendo também dominar outras, como inglês, francês, alemão, etc. Tal profissional exerce sua função em diferentes ambientes e situações em que exista uma ação recíproca entre surdos usuários da língua de sinais e ouvintes que não sinalizam. Assim sendo, ele deve lembrar-se da importância da qualificação para a sua atuação, por isso deve conhecer e aplicar as técnicas de interpretação e tradução, ter contato com a comunidade surda para conhecer e manter-se atualizado sobre as gírias, termos próprios utilizados na comunidade, sobre a história e costumes. Além disso, este profissional deve buscar novos conhecimentos na área, cursos de formação e permanente leitura e pesquisa.
O intérprete pode atuar em diversos ambientes, como foi supracitado, e a escola é um dos lugares onde este profissional pode estar. Sua função pode ser exercida em diferentes séries do ensino regular e este realiza suas atividades sozinho, ou seja, não há revezamento com outro profissional intérprete, para que ambos possam ter minutos de descanso, a fim de que não desenvolvam doenças relacionadas ao trabalho, mas este é um assunto que não trataremos agora.
4. Os surdos e os intérpretes de língua de sinais
O número de alunos presentes na sala de aula onde o intérprete atua pode variar. Encontram-se salas com um ou treze alunos surdos e, dentre estes, alguns não demonstram fluência na língua de sinais, ou seja, o intérprete poderá estar em uma sala com alunos com diferentes níveis de proficiência na língua ou sem nenhum conhecimento. Percebe-se que crianças surdas são inclusas nas escolas públicas sem antes ter adquirido a língua de sinais, isto implica em sérios entraves no desenvolvimento do indivíduo, além de acarretar dificuldades no processo interpretativo, no que tange a interpretar para o surdo ou interpretar o surdo.
Neste processo de interpretação de língua de sinais, podem existir problemas no ato de linguagem. Estes podem acontecer por diferentes motivos, mas, muitas vezes, o intérprete é o primeiro a ser julgado como culpado, como aponta Pereira (p.137):
Estes conflitos são maximizados por estereótipos dos quais é difícil nos livrarmos, tais como o velho traduttori, tradittori, que coloca a profissão sob permanente desconfiança, pois se algo vai mal no ato de linguagem, o primeiro a ser apontado como culpado é o intérprete.
Silva (2001, p.46) reitera sobre essa questão:
Os problemas dos surdos com a aquisição da escrita estão mais relacionados aquisição e ao desenvolvimento de uma língua efetiva que lhes permita uma identidade sociocultural, ou seja, ‘estar insertos no contexto social’; só assim poderão entender as diferenças existentes entre sua própria língua e as outras.
Danielle Vanessa Costa Sousa
Licenciada em Letras, com habilitação em Língua Inglesa e Especialista em Docência do Ensino Superior. Possui certificado de Proficiência em Tradução e Interpretação Libras / Português / Libras, intitulado Prolibras, nível médio e superior. Atua como Intérprete de Libras e coordenadora do Núcleo de Estudos Linguísticos (NEL) no CAS - Centro de Ensino de Apoio às Pessoas com Surdez “Maria da Glória Arcangeli” em São Luís/MA
1.2 A influência da Cultura nos relacionamentos amorosos: Alguns mitos a serem discutidos.
Segundo Nogueira (2006), as mulheres nos séculos XIX e XX, eram utilizadas como “moeda” de troca, em acordos familiares. Nava (1983 apud Nogueira, 2006) afirma que o casamento poderia ser realizado entre pessoas com comportamentos e gênios completamente opostos. Geralmente eram uniões seladas ora pelo julgo de um ou outro cônjuge.
Nogueira (2006) afirma que os pais desejavam traçar o caminho de seus filhos, principalmente de suas filhas, que, segundo as teorias da época, eram incapazes de gerir sua vida sem o auxílio de um homem. Por outro lado, há uma tendência cada vez maior em se romper com arranjos matrimoniais e desafiar a autoridade paterna, em defesa do ideal romântico do casamento por amor.
Ainda segundo a mesma autora, o amor era a motivação para jovens adolescentes enfrentarem a tutela dos pais e tentar constituir uma nova família. No século XX, ele passa a ser considerado um elemento importante nas uniões matrimoniais.
De acordo com as pesquisas de Nogueira (2006), a importância do casamento para estes grupos era preservar e ampliar seu patrimônio, garantindo sua posição social e ampliando seu poder político. Sobre os casamentos consangüíneos, a autora afirma que:
"Esses casamentos, além de reforçarem o patrimônio da família e afastarem o “fantasma” da falência, permitiam a solidificação das relações, que não passavam somente por um contrato comercial entre devedor e seus credores, como um negócio de família, cuja fortuna e sangue não se dispersavam. Como os esposos, graças ao pátrio poder, possuíam a autoridade de chefes de família, administravam as heranças de suas esposas, possibilitando cada vez mais, o fortalecimento do patrimônio familiar." (p. 01).
Já nos casos de arranjos baseados entre alianças realizadas entre família importantes, temos as relações de reciprocidade sendo a maior motivação para o casamento. Segundo Oliveira (2005), por esta prática, obtinha-se a consolidação e preservação do status social de grupos pertencentes à elite. Era uma forma de reprodução social, na qual bens materiais e simbólicos circulavam entre famílias importantes e garantiam a perpetuação de seu patrimônio político e social. No caso das famílias mais simples, os arranjos matrimoniais eram menos ambiciosos, mas também podiam ser baseados em relações de reciprocidade. Os pais buscavam para suas filhas casamentos nos quais elas trariam para a família um bem, material ou imaterial, que representasse um investimento futuro no crescimento social e/ou econômico do grupo familiar. Daí pode-se supor que o rompimento de arranjos ou quaisquer outros fatores que comprometiam o futuro casamento de uma moça representava forte golpe na organização familiar. Mas entre os pobres havia uma certa flexibilidade que permitia às moças buscar o sonho dourado da felicidade ao lado de seu amado.
Conforme relata Trigo (1989), desde o século XX até as datas atuais, a escolha de um parceiro passou a ser, pelo menos na teoria, um tema livre e que tem como base o amor. A valorização do amor baseia-se na legitimidade que ele dá ao matrimônio e na estabilidade e permanência que ele adquire como construtor do espaço doméstico.A partir deste histórico podemos observar que, há décadas, a escolha de um parceiro para relacionamento amoroso só é considerada legítima se ocorrer em função do “amor”, sentimento que guiaria os apaixonados para uma “escolha mais acertada”, que lhes traria felicidade. Nesta perspectiva, o “amor” é visto como um sentimento autônomo, que surge à revelia dos apaixonados, de forma independente das relações que o indivíduo estabelece com seu ambiente no decorrer de sua história de vida. Entretanto, esta visão de amor é incompatível com a proposta skinneriana, que não considera sentimentos como causa de comportamentos, explicando ambos (sentimentos e comportamentos) como resultantes da interação que o indivíduo estabelece com seu ambiente filogenético (história da espécie), ontogenético (história de vida) e cultural.
REFERÊNCIAS:
NOGUEIRA, Natania A. da Silva. A família mineira: impressões e narrativas (Juiz de Fora, 1850-1920). In: Anais do III Simpósio Nacional de História Cultural: mundos da Imagem – do texto ao visual. Florianópolis, UDSC, 2006.
OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Negócios de família:mercado, terra e poder na formação da cafeicultura mineira. 1780-1870. Bauru – SP: Edusc; Juiz de Fora, MG; FUNALFA, 2005.
TRIGO, Maria Helena Bueno. Amor e casamento no século XX. In. D´INCAO, Maria Helena (org.) Amor e família no Brasil – SP: Contexto, 1989, p. 88-90.